Uma em cada quatro mulheres sofre agressão na gravidez

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Uma a cada quatro mulheres no Brasil denuncia ter sofrido algum tipo de agressão, física ou psicológica, durante sua gestação ou no momento do parto, segundo uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo. A chamada violência obstétrica é uma realidade brasileira e em Natal não é diferente. Apesar de não haver estudos locais sobre o problema, a certeza é que ele está muito presente na vida das gestantes e preocupa as autoridades. Para combater esse tipo de violência, a Secretaria Municipal de Políticas Públicas para as Mulheres (Semul) a aborda na campanha “16 dias de ativismo pelo fim da violência contra a mulher”, que se encerra no próximo sábado (10).

Esse é um assunto que preocupa justamente porque falta ainda esclarecimento por parte das mulheres do que seja violência obstétrica, prática que pode vir dos parceiros das mulheres ou mesmo das equipes médicas que acompanham o período de gestação. Ontem pela manhã, no Centro de Referência da Assistência Social (CRAS) Pajuçara, na Zona Norte, a violência obstétrica foi tema na sessão de cinema Cine Leide, onde foi veiculado o curta-metragem “Renascimento do parto”, que trata do assunto. Amanhã, às 14h, será a vez da Maternidade Leide Morais receber o filme.
gifnovoUma doula é uma assistente de parto que acompanha a gestante durante o período da gestação até os primeiros meses após o parto, com foco no bem estar da mulher. Segundo a presidente da Associação Potiguar da categoria, Nicole Passos, falta mais esclarecimento por parte das mulheres sobre o tema. “É muito frequente tanto no sistema privado quanto no público. Há uma alta incidência de procedimentos não-humanizados”, disse. “As mulheres muitas vezes nem percebem a violência, só sentem que tiveram uma experiência ruim com o parto”, complementou Nicole.
O leque do que é considerada violência obstétrica é amplo: desde insultos sofridos pela gestante por sua condição física, mau atendimento médico durante o pré-natal até procedimentos cirúrgicos desnecessários, como cesarianas, episiotomia – um corte que se faz entre a vagina e o ânus da mulher para, teoricamente, facilitar a saída do bebê durante o parto – ou “manobra de Kristeller” – técnica executada durante o parto onde se aplica pressão na parte superior do útero com o objetivo de facilitar a saída do bebê.
Não é incomum, comenta Nico Passos, durante ou momentos antes do parto, as gestantes gritarem de dor e ouvirem como resposta de um enfermeiro ou enfermeira: “Na hora de fazer não sentiu dor”. Esse tipo de “piada”, conta a doula, ainda acontece com frequência e se configura como violência obstétrica. Nicole Passos diz que todos os procedimentos invasivos, como a cesariana, ainda muito praticados no Brasil, são violências das mais graves, principalmente quando são impostas pelos médicos.
Até o aborto, segundo a secretária da Semul, Aparecida França, pode ser considerado uma violência a partir do momento em que as equipes médicas negam o procedimento, mesmo que estejam respaldadas pela lei – que permite o procedimento em caso de estupro e risco de vida à mãe.
O caminho para cada vez mais reduzir os registros de violência é a informação, conta a representante da Associação Potiguar de Doulas. Participar de grupos de gestantes e acompanhamento com doulas é fundamental nesse sentido, assim como políticas de divulgação por parte do poder público.
16 Dias de Ativismo pelo fim da violência 
contra a mulher
A campanha foi criada em 1991, quando mulheres de diferentes países, reunidas pelo Centro de Liderança Global de Mulheres (Center for Women’s Global Leadership – CWGL), resolveram criar o evento com o objetivo de promover o debate e denunciar as várias formas de violência contra as mulheres no mundo. Atualmente, cerca de 150 países desenvolvem a campanha.
Em âmbito nacional acontece desde 20 deste mês (Dia da Consciência Negra) e segue até 10 de dezembro (Dia Universal dos Direitos Humanos). Em nível internacional, a ação começou no dia 25 de novembro – Dia Internacional da Não-Violência contra as Mulheres.
No próximo dia 10, quando é comemorado o Dia Internacional dos Direitos Humanos, se encerra a campanha “16 Dias de ativismo pelo fim da violência contra a mulher”, que acontece em nível internacional.
A ação toma como referência datas emblemáticas que ocorrem entre novembro e dezembro, para lembrar a importância do engajamento da sociedade no enfrentamento à violência doméstica: o Dia Internacional da Não-Violência contra as Mulheres, no dia 25 de novembro, o Dia Mundial de Combate à Aids – 1º de dezembro –, o Dia Nacional da Mobilização de Homens pelo fim da violência contra a mulher – 6 de dezembro –, e por fim o dia 10.
Em Natal, a programação da campanha começou já no dia 20 de novembro, com o Dia da Consciência Negra, e é coordenada pela Secretaria Municipal de Políticas Públicas para as Mulheres (Semul), contando com uma série de eventos. Nesta última quarta-feira (07), aconteceu a sessão de cinema Cine Leide no CRAS Pajuçara, sobre violência obstétrica. Amanhã, a partir das 14h, o mesmo acontecerá na Maternidade Leide Morais. Esta ação é realizada em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) e Associação Potiguar de Doulas.
Ontem também, como parte da programação, ocorreu no salão nobre da Prefeitura o lançamento do III Concurso Literário “Nísia Floresta” e Artístico “Maria do Santíssimo”, promovido pelo Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (CMDM). A ação é voltada para os estudantes da rede municipal de educação, que deverão produzir trabalhos, no início do ano letivo de 2017, com o tema “Viver sem Violência” para concorrer a tablets.
A secretária da pasta, Aparecida França, diz que o enfrentamento à violência contra a mulher, seja qual for essa violência, deve acontecer permanentemente, no dia a dia, desde pequenas atitudes, como identificar e combater comportamentos machistas que depreciam a mulher, até encorajar as mulheres que são alvos da de parceiros e ex-parceiros, a denunciar e procurar apoio.
Natal, conta a secretária, é uma das cidades mais violentas do país para as mulheres. O Mapa da Violência de 2015, voltado para o assunto, a capital potiguar é a 12ª do Brasil e homicídios contra mulheres, tendo uma taxa de 6,6 (por 100 mil), em 2013. Natal também teve o maior crescimento percentual em relação a feminicídios entre 2003 e 2013, apresentando um aumento de 228%. Em 2016, 71 mulheres já foram atendidas pela Casa Abrigo Clara Camarão, da Semul, que recebe mulheres ameaçadas de morte pelos companheiros. No ano passado foram 59 abrigadas na instituição.
Há alguns números que podem ser utilizados por mulheres para fazer denúncias: o 180, que é federal, e a nível local também pode ser discado o 3232-1036 e o 3232-7845, ambos da própria Semul. “As mulheres estão denunciando mais, acredito pela maior conscientização por parte delas”, destacou Aparecida França.
Os partos cesarianos, um dos procedimentos considerados mais invasivos na obtretícia e, com isso, um ato de violência obstétrica, se concentram na capital potiguar. Segundo dados do Ministério da Saúde, entre 2010 e 2014, 25% das cesárias realizadas no Rio Grande do Norte ocorreram em Natal. O dado é referente aos nascimentos por residência da mãe. Isso quer dizer que o que se leva em conta nessa estatística é a cidade onde a mulher mora. No total, o RN registrou nesse período 131.908 nascimentos pelo procedimento, sendo 33.850 na capital.
Somente em 2014, foram 7.153 procedimentos cirúrgicos em mulheres natalenses, o que é 2,8% a mais do que o registrado a 2013. Os números, inclusive indicam um aumento a cada ano de cesárias, quando se analisa o período. De 2010 a 2014 o salto de procedimentos cirúrgicos no parto subiu 16,3%.
A diretora da Maternidade Leide Morais, Rosário Bezerra, conta que o grande problema das cesarianas é a imposição muitas vezes feita pelos médicos. Ela diz que a violência obstétrica é “uma violência muito mais do que institucional, é uma violência de gênero”.
Ela critica também a política ainda existente no Brasil de valorização desse tipo de procedimento, o que vai de encontro com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), que valoriza as vantagens de uma assistência ao parto que se efetive sem intervenções desnecessárias.
A OMS diz que taxas de operações cesarianas superiores a 10% não contribuem para a redução da mortalidade materna, perinatal ou neonatal. A taxa de referência ajustada pelo instrumento desenvolvido pela OMS estaria entre 25% e 30%.
Do Novo Jornal