Por que tantos homens têm dificuldade de ouvir “não”?

Casos de feminicídio muitas vezes estão associados a respostas negativas das vítimas

220
Homens aprendem desde muito novos que são o poder dominante na sociedade
Getty Images

Janaína e Nislaine foram mortas a tiros porque disseram “não” aos seus ex-namorados quando eles tentaram reatar depois de os relacionamentos acabarem. Marcieli levou várias facadas do ex-companheiro inconformado com o final da relação. Keyla e Érica foram mortas por homens que não aceitaram a recusa delas para passeios.

Casos como os dessas pessoas acontecem todos os dias e evidenciam o problema da violência contra a mulher.

O que esses casos de feminicídio têm em comum? Homens que não souberam lidar com a resposta negativas das mulheres. O que explica o fato de os homens terem dificuldade em lidar com o “não”? Especialistas ouvidas pelo R7 acreditam que tudo se deve à construção social de uma cultura machista em que o homem acredita que ele é a pessoa que deve tomar as decisões.

De acordo com a socióloga Gisele Rodrigues o lado social influencia em uma cultura machista dominante e o histórico cultural coloca o homem sempre como “o explorador e o caçador”. Ela afirma que tudo isso “está relacionado ao poder”.

— O homem é visto como o ser político dominante. Na concepção machista, o “não” nunca pode estar associado à mulher. Porque ele é o poder dominante.

A advogada Marina Ganzarolli diz que “as masculinidades são construídas socialmente” e que o conceito do que é feminino e do que é masculino são diferentes nas sociedades. Assim sendo, não podem ser vistos como questões biológicas.



— Quando a gente associa o universo masculino ao da liderança, da forma e da bravura, isso é construído e é produto da nossa cultura.

Segundo a advogada, que é uma das fundadoras da Rede Feminista de Juristas, desde que nascemos somos condicionados às ações que foram construídas para serem “de menino” e “de menina”.

— Para a menina falam “senta direito, abaixa a saia, seja delicada” e para os meninos dizem “não pode chorar, seja homem, seja forte”. A gente condiciona essa forma de relacionamento nas crianças. Quando um menino está puxando o cabelo da menina, por exemplo, a professora fala que ele faz isso porque “gosta” dela. A gente ensina as meninas que quando ele gosta de você, ele te agride, e para o menino, que ele tem que perseguir a mulher.

A socióloga afirma que o homem acredita, desta forma, que ele é quem decide quando irá ser colocado um fim no relacionamento e quando ele deve continuar.

— Ele pensa: “eu não posso aceitar o fim do relacionamento. Esse poder é meu”. A ideia de que o homem é o provedor determina que ele é quem decide quando e como isso irá acontecer. Quando ele recebe uma negativa, traz à tona uma questão cultural e social.

Gisele diz, porém, que isso não é um determinante do sexo masculino e que um homem não irá sempre reagir de uma forma violenta quando for negado algo a ele. Isso, segundo ela, muda de acordo com o contexto familiar em que a pessoa está inserida.

— Tem, exemplos de famílias construídas com uma outra base, que têm uma vivência que não permite isso.