Câncer de menino de 6 anos é diagnosticado como birra e agressão

'O médico disse que era frescura, mas meu filho estava com câncer', conta mãe

309
Reprodução

Kaíque, um menino ativo de seis anos, acordou em uma manhã sem conseguir ficar de pé. A mãe dele, a cozinheira Maria Osana de Amorim Ferreira, de 43 anos, levou o filho a vários médicos e ouviu os mais variados diagnósticos, que foram de manha infantil, anemia e alergia a suspeitas de agressões físicas. O que Kaíque tinha, na verdade, era Linfoma de Burkitt, um tipo de câncer.



“Meu filho sempre foi muito bagunceiro e brincalhão, a clássica criança arteira. No entanto, quando estava com seis anos, começou a ficar muito cansado. Um dia, acordou e veio se arrastando até mim: ‘Mamãe, eu não consigo ficar de pé’. Mandei ele parar de gracinha e, como achei que poderia estar cansado, sugeri que dormisse novamente”, contou a mãe ao UOL.

O menino chegou a reclamar que o pé doída um pouco. Maria Osana deitou o filho no sofá com as pernas para cima e massageou os pés do menino. Isso fez com ele adormecesse e quando acordou, ao ouvir o pedido da mãe para que se levantasse, respondeu: “Mamãe, é sério. Não estou sentindo as minhas pernas”.

No dia seguinte, a mãe levou Kaíque ao Hospital de São Mateus, no bairro onde vivem, sem São Paulo. Sem fazer exames, o médico disse que era “dengo”, contou a mãe. “É frescurinha de criança. Pode levar para casa que não tem nada”, afirmou. Como o pai da criança se recusou a deixar a unidade de saúde, o médico receitou um remédio. “Vou dar a receita de dipirona [analgésico e antitérmico], então, para o senhor dar caso ele sinta alguma dorzinha. Mas é só frescura”, disse ele.

Como o problema persistiu, Kaíque foi levado pelos pais ao Pronto Atendimento São Mateus, onde foram feitos alguns exames e identificaram uma anemia. O médico, dessa vez, receitou uma dieta rica em ferro e mandou a família para a casa.

Mesmo seguindo todas as orientações, o menino não melhorava e os pais levaram-no para o posto de saúde. Mais uma vez o médico disse que a “criança não quer ir para a escola e fica inventando coisa”, pois os exames estavam todos normais.

No Pronto Atendimento Bangú, em Santo André, na grande São Paulo, o diagnóstico foi sinusite. Enquanto fazia inalação e usava soro no nariz, os olhos de Kaíque começaram a inchar e ele ainda não conseguia andar. Três dias depois, após a realização de um novo exame, identificaram uma bactéria na perna do menino, provavelmente causada por uma picada de inseto. A médica receitou um antialérgico.

Um outro médico perguntou: “a senhora bateu nele?”. A família passou um mês no hospital Hospital Infantil Cândido Fontoura, onde foi medicado com corticoide e voltou a andar. “Apesar de ter sido acusado de agredir meu filho, não critico os profissionais do hospital. Foi nele onde tudo começou a ser resolvido. Durante a internação, meu filho chegou a ser levado de ambulância para outros hospitais fazer uma ressonância magnética e uma tomografia. Só que nada de errado aparecia”, disse.

Mesmo depois te todos os procedimentos, o menino foi liberado sem um diagnóstico e um tratamento preciso.

Em um outro dia, quando o nariz do Kaíque começou a sangrar, a família voltou para o Hospital Cândido Fontoura. Só aí a família foi informada que o menino tinha um tumor e encaminhada para o Hospital do GRAACC (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer).

Chegamos lá no dia 28 de dezembro de 2015 e no dia 31 já ficamos sabendo o que ele tinha: Linfoma de Burkitt [um tipo de câncer denominado ‘Linfoma Não Hodgkin’, muito agressivo, mas que quando é devidamente tratado possui grandes chances de cura. Os atores Reynaldo Gianecchini e Edson Celulari já enfrentaram uma forma mais branda da doença]. Claro que gostaria de ter uma resposta, mas não pensei que fosse tão grave assim. Foi um susto e sinto que a ficha ainda não caiu. Alguns dias a mais nessa indefinição e ele poderia estar morto.”




No Hospital do GRAACC o menino foi submetido a uma quimioterapia e a um autotransplante de medula óssea. Hoje, Kaíque está em casa, mas ainda faz acompanhamento médico uma vez por mês.

“O sonho do Kaique é ir para a praia, mas o médico falou que só vai autorizar em dezembro. Esse é o tempo de espera necessário para saber se o tratamento deu mesmo certo e se está tudo bem com ele. Meu filho só fica triste porque ainda não pode comer coxinha. Faço salgadinhos para fora e essa é a guloseima preferida dele”, contou a mãe.